"Cantaste a beleza do Sol, da Lua, da chuva, das aves, dos campos e de todas as criaturas. Reconheceste a presença divina em cada expressão da Natureza e chamaste irmãos e irmãs a todos os seres."
Enquanto a humanidade se consumia em guerras, disputas de poder e dominação entre povos, sentiste o impulso interior de servir uma causa maior. Movido por ideais nobres, procuraste defender os mais vulneráveis, acreditando que assim servias Deus e a tua pátria.
Ainda não compreendias plenamente qual seria a verdadeira batalha da tua existência. As glórias que vislumbravas nos teus sonhos pareciam estar ligadas às conquistas do mundo, mas o destino reservava-te uma missão diferente.
Nascido para a paz, dificilmente poderias encontrar realização no uso das armas ou na violência. As circunstâncias da vida conduziram-te ao sofrimento, à prisão e à enfermidade. Foi então, no silêncio da dor, que o Amor Divino te visitou e te chamou para uma nova forma de combate, cujas armas seriam a mansidão, a renúncia e o serviço.
Eras jovem, sonhador e apaixonado pela beleza da vida. Cantavas sob as estrelas e cultivavas ideais elevados. No entanto, trazias dentro de ti uma inquietação profunda que nada conseguia apaziguar. Disfarçavas a melancolia com a alegria, mas sabias que a tua alma procurava algo que o mundo não podia oferecer.
Quando ouviste o chamamento do Cristo, tudo mudou. O fascínio pelas convenções perdeu força diante da grandeza do amor que descobrias dentro de ti. Começaste então o caminho do desapego. Libertaste-te dos bens materiais para aprender a libertar-te de ti mesmo e entregar o coração ao serviço do Bem.
Os teus familiares não te compreenderam de imediato, mas os esquecidos, os doentes e os excluídos reconheceram na tua presença uma esperança renovadora. Levaste pão, consolo, ternura e fraternidade àqueles que a sociedade ignorava. E onde muitos viam miséria, tu encontravas irmãos.
Mais tarde, outros se juntaram à tua caminhada. Homens e mulheres que procuravam uma forma mais simples e autêntica de viver o Evangelho encontraram em ti um exemplo vivo da mensagem de Jesus. Sem recorrer a discursos complexos, ensinavas através da tua própria vida. Transformaste a existência numa canção de louvor à Criação.
Cantaste a beleza do Sol, da Lua, da chuva, das aves, dos campos e de todas as criaturas. Reconheceste a presença divina em cada expressão da Natureza e chamaste irmãos e irmãs a todos os seres. Enquanto muitos observavam o teu caminho com estranheza, outros deixavam-se tocar pelo teu exemplo de humildade e amor.
Assim nasceu uma corrente de esperança que atravessou séculos. Hoje, Irmão Francisco, continuamos a precisar da tua canção. O mundo mudou, mas muitos dos desafios persistem sob novas formas. Há avanços extraordinários na ciência, na tecnologia e na comunicação. As distâncias diminuíram e a informação circula com rapidez. Contudo, muitos corações continuam a sentir-se sós e inseguros.
Muitos jovens procuram sentido para a vida num mundo marcado pela velocidade, pela pressão e pela incerteza. Existem novas oportunidades, mas também novos desafios. As dependências, a violência, a exclusão, a indiferença e a perda de referências continuam a afetar inúmeras vidas.
As relações humanas tornam-se, por vezes, frágeis perante o individualismo, a ansiedade e a dificuldade de criar vínculos duradouros. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas continuam a procurar o amor, a solidariedade, a beleza e a paz. Nem tudo está perdido.
Há homens e mulheres que dedicam a vida ao serviço do próximo. Há jovens comprometidos com causas nobres. Há corações que continuam a acreditar na fraternidade, na justiça e na compaixão. Há pessoas que trabalham silenciosamente pela construção de um mundo melhor. Tal como no teu tempo, convivem lado a lado a sombra e a luz, o sofrimento e a esperança.
O progresso trouxe conquistas admiráveis, mas também revelou novos desafios éticos e morais. A humanidade possui recursos capazes de transformar a vida na Terra para melhor, mas continua a enfrentar o risco de utilizar o conhecimento sem a correspondente sabedoria. A natureza, que tanto amaste, pede cuidado e respeito.
O planeta mostra sinais de desgaste resultantes de escolhas coletivas que precisam de ser repensadas. Muitas vozes falam de paz, mas nem sempre as suas ações refletem esse ideal. Por isso continuamos a necessitar da tua mensagem simples e luminosa.
Precisamos de reaprender a olhar para o outro como irmão. Precisamos de redescobrir o valor da simplicidade. Precisamos de recordar que a verdadeira riqueza nasce do amor partilhado. Irmão Francisco, o mundo aguarda ainda a tua canção.
Não uma canção feita de palavras apenas, mas a melodia viva da compaixão, da humildade, da alegria e da confiança em Deus. Ajuda-nos a encontrar o silêncio interior onde a voz do Espírito pode ser ouvida. Ensina-nos a reconciliar-nos com a Natureza, connosco mesmos e com os nossos irmãos.
Mostra-nos novamente que a mansidão é mais forte do que a violência, que o amor é mais poderoso do que o medo e que a simplicidade continua a ser um dos caminhos mais seguros para Deus.
Prepararemos o coração para que a tua mensagem floresça entre nós, e quando escutarmos a tua canção, reconheceremos nela a voz do Cristo que tanto amaste e serviste.
Que ela nos conduza, mais uma vez, ao caminho da liberdade interior, da fraternidade e da paz.
Joana D´Angeles
Por: Matéria Subllime

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