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25 outubro 2026

Irmão Francisco: Canta Novamente ao Mundo


"Cantaste a beleza do Sol, da Lua, da chuva, das aves, dos campos e de todas as criaturas. Reconheceste a presença divina em cada expressão da Natureza e chamaste irmãos e irmãs a todos os seres."

Enquanto a humanidade se consumia em guerras, disputas de poder e dominação entre povos, sentiste o impulso interior de servir uma causa maior. Movido por ideais nobres, procuraste defender os mais vulneráveis, acreditando que assim servias Deus e a tua pátria.

Ainda não compreendias plenamente qual seria a verdadeira batalha da tua existência. As glórias que vislumbravas nos teus sonhos pareciam estar ligadas às conquistas do mundo, mas o destino reservava-te uma missão diferente.

Nascido para a paz, dificilmente poderias encontrar realização no uso das armas ou na violência. As circunstâncias da vida conduziram-te ao sofrimento, à prisão e à enfermidade. Foi então, no silêncio da dor, que o Amor Divino te visitou e te chamou para uma nova forma de combate, cujas armas seriam a mansidão, a renúncia e o serviço.

Eras jovem, sonhador e apaixonado pela beleza da vida. Cantavas sob as estrelas e cultivavas ideais elevados. No entanto, trazias dentro de ti uma inquietação profunda que nada conseguia apaziguar. Disfarçavas a melancolia com a alegria, mas sabias que a tua alma procurava algo que o mundo não podia oferecer.

Quando ouviste o chamamento do Cristo, tudo mudou. O fascínio pelas convenções perdeu força diante da grandeza do amor que descobrias dentro de ti. Começaste então o caminho do desapego. Libertaste-te dos bens materiais para aprender a libertar-te de ti mesmo e entregar o coração ao serviço do Bem.

Os teus familiares não te compreenderam de imediato, mas os esquecidos, os doentes e os excluídos reconheceram na tua presença uma esperança renovadora. Levaste pão, consolo, ternura e fraternidade àqueles que a sociedade ignorava. E onde muitos viam miséria, tu encontravas irmãos.

Mais tarde, outros se juntaram à tua caminhada. Homens e mulheres que procuravam uma forma mais simples e autêntica de viver o Evangelho encontraram em ti um exemplo vivo da mensagem de Jesus. Sem recorrer a discursos complexos, ensinavas através da tua própria vida. Transformaste a existência numa canção de louvor à Criação.

Cantaste a beleza do Sol, da Lua, da chuva, das aves, dos campos e de todas as criaturas. Reconheceste a presença divina em cada expressão da Natureza e chamaste irmãos e irmãs a todos os seres. Enquanto muitos observavam o teu caminho com estranheza, outros deixavam-se tocar pelo teu exemplo de humildade e amor.

Assim nasceu uma corrente de esperança que atravessou séculos. Hoje, Irmão Francisco, continuamos a precisar da tua canção. O mundo mudou, mas muitos dos desafios persistem sob novas formas. Há avanços extraordinários na ciência, na tecnologia e na comunicação. As distâncias diminuíram e a informação circula com rapidez. Contudo, muitos corações continuam a sentir-se sós e inseguros.

Muitos jovens procuram sentido para a vida num mundo marcado pela velocidade, pela pressão e pela incerteza. Existem novas oportunidades, mas também novos desafios. As dependências, a violência, a exclusão, a indiferença e a perda de referências continuam a afetar inúmeras vidas.

As relações humanas tornam-se, por vezes, frágeis perante o individualismo, a ansiedade e a dificuldade de criar vínculos duradouros. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas continuam a procurar o amor, a solidariedade, a beleza e a paz. Nem tudo está perdido.

Há homens e mulheres que dedicam a vida ao serviço do próximo. Há jovens comprometidos com causas nobres. Há corações que continuam a acreditar na fraternidade, na justiça e na compaixão. Há pessoas que trabalham silenciosamente pela construção de um mundo melhor. Tal como no teu tempo, convivem lado a lado a sombra e a luz, o sofrimento e a esperança.

O progresso trouxe conquistas admiráveis, mas também revelou novos desafios éticos e morais. A humanidade possui recursos capazes de transformar a vida na Terra para melhor, mas continua a enfrentar o risco de utilizar o conhecimento sem a correspondente sabedoria. A natureza, que tanto amaste, pede cuidado e respeito.

O planeta mostra sinais de desgaste resultantes de escolhas coletivas que precisam de ser repensadas. Muitas vozes falam de paz, mas nem sempre as suas ações refletem esse ideal. Por isso continuamos a necessitar da tua mensagem simples e luminosa. 

Precisamos de reaprender a olhar para o outro como irmão. Precisamos de redescobrir o valor da simplicidade. Precisamos de recordar que a verdadeira riqueza nasce do amor partilhado. Irmão Francisco, o mundo aguarda ainda a tua canção.

Não uma canção feita de palavras apenas, mas a melodia viva da compaixão, da humildade, da alegria e da confiança em Deus. Ajuda-nos a encontrar o silêncio interior onde a voz do Espírito pode ser ouvida. Ensina-nos a reconciliar-nos com a Natureza, connosco mesmos e com os nossos irmãos.

Mostra-nos novamente que a mansidão é mais forte do que a violência, que o amor é mais poderoso do que o medo e que a simplicidade continua a ser um dos caminhos mais seguros para Deus.

Prepararemos o coração para que a tua mensagem floresça entre nós, e quando escutarmos a tua canção, reconheceremos nela a voz do Cristo que tanto amaste e serviste.

Que ela nos conduza, mais uma vez, ao caminho da liberdade interior, da fraternidade e da paz.

Joana D´Angeles

Por: Matéria Subllime

29 março 2016

Irmão da Natureza - S. Francisco de Assis



Falando a S. Francisco de Assis

Enquanto a sociedade estertorava nas guerras cruentas de dominação de povos e vidas, sentiste a necessidade de lutar pela Pátria, evitando o abuso daqueles que consideravam com o direito a escravizar os seus irmãos. Não compreendendo a luta que deverias travar, pensaste que as glórias antevistas em sonho referiam-se aos tesouros terrestres, e para melhor compreenderes o amor do Cristo, marchaste para a defesa dos fracos, pensando em servir a Deus e ao país.

Nascido para a paz, jamais poderias combater com armas destruidoras, e por isso tombaste prisioneiro dos hábeis verdugos, que te encarceraram e te fizeram sofrer. Humilhado e enfermo, retornaste ao lar, quando foste visitado pelo Amigo-Amor que te convocou para diferente luta, cujas armas seriam a mansidão, a renúncia, o sacrifício.

Eras jovem e sonhador, trovador das noites estreladas e amigo da ilusão. No entanto, possuías uma tristeza invencível que nada conseguia diminuir. Dissimulavas a melancolia com a jovialidade, mas sabias que a tua vida não te pertencia, embora não entendesses a solidão interior que te macerava, preparando-te para a soledade entre todos pelo resto da tua existência. Mas quando ouviste o chamado do Cantor da misericórdia, todo o teu ser tremeu de emoção e perdeste o interesse pela existência convencional.

Começaste o despojamento, liberando-te das coisas, para poderes libertar-te de ti mesmo, a fim de te entregares a Ele por inteiro. Os teus não te compreenderam, mas os leprosos de Rivotorto te receberam as doações de pão, de paz, de carinho com lágrimas que os olhos da alma vertiam em abundância, na decomposição em que se consumiam. Mais tarde, outros solitários vieram unir-se à tua soledade, a fim de formarem o rebanho submisso ao cajado do Pastor. Ignorando a teologia, sabias o Evangelho na sua integral pureza, sem disfarces nem dissimulações, e saíste a vivê-lo, enquanto o pregavas com palavras simples e atos de coragem incomum.

Transformaste as noites festivas de cantos e banquetes em um perene poema de beleza, enaltecendo os irmãos Sol, Lua, Chuva, Pássaros, Lobo, Neve, enquanto o mundo de então te espreitava com desconfiança e desinteresse. Mas, o teu exemplo de abnegação continuo sensibilizando outros corações ansiosos de vida nova, que te passaram a acompanhar pelas estradas da Úmbria, albergando-se na Porciúncula modesta e desprovida de tudo, menos da ternura.

Quando menos esperaste, havia multidões que se comprimiam para ouvir as tuas canções de esperança e caridade, tocadas pela tua presença e a dos teus cancioneiros, tão desprotegidos como tu mesmo, no entanto amparados pelo Sublime Cantor. Irmão Francisco! Canta outra vez para nós o teu poema de amor, nestes calamitosos dias que vivemos! As noites da Terra já não são ricas de cações, mas de expectativas dolorosas. Os grupos juvenis raramente se reúnem para sorrir ou para os folguedos inocentes, e sim para a embriaguez alcoólica ou o envenenamento por drogas alucinantes. O enamoramento que procede à união dos corpos foi sucedido pela volúpia do sexo em desalinho e a posterior dilaceração dos sentimentos face ao abandono e às suas consequências perversas.

O relacionamento fraternal tem sido transformado em gangues violentas que se arremetem umas contra as outras em fúria desconhecida. A literatura gentil e cavalheiresca cede lugar à pornografia desabrida e às narrações de funestos acontecimentos. A música romântica transformou-se em vulcão de ruídos metálicos que induzem à loucura e à bestialidade. A poesia perdeu a inocência e a beleza, passando às arremetidas de palavras sem nexo ou construções de palavras sem ritmo, sem rima, sem mensagem. É certo que ainda permanecem em alguns grupos o sentimento de amor, de fraternidade, de beleza e de harmonia, afirmando que nem tudo está perdido na grande noite adornada de ciência e de tecnologia, na qual as almas estorcegam sob os camartelos do sofrimento. Existe muito conforto para uns e nenhum para outros. Aliás, também nos teus dias era assim, razão porque preferistes os últimos, oferecendo-lhes carinho por faltarem outros recursos.

O progresso facilitou o intercâmbio entre as criaturas e propiciou o desenvolvimento da criminalidade e do ódio. Há grandeza, sim, na arte e no pensamento, na cultura e no sentimento, porém, a fé empalideceu e agoniza ante a predominância do comportamento hedonista que se espalha por toda a parte. O firmamento está cortado a cada momento por grandiosas naves conduzindo milhões de indivíduos de um para outro lado, com todo luxo e facilidade. Todavia, milhares de ogivas nucleares carregadas de bombas de alta destruição aguardam o simples movimento para dispararem suas cargas terríveis de desagregação de tudo.

Nesse pandemônio de alegrias e pavor, de riquezas e misérias, de esperanças e desencantos, há milhões de pessoas anelando por conhecer-te ou reencontrar-te, a fim de que a tua canção, Irmão da Natureza, as reconduza a Jesus a quem tanto amas! Volta novamente à Terra, Trovador de Deus, para que tua pobreza inunde de poder todos aqueles que acreditam na força de não ter nada, nas infinitas possibilidades da não - violência e no infinito amor do Pai!

Irmão Francisco: O teu irmão lobo transformou-se no monstro devastador de drogas que consomem a juventude, em especial, e a outros indivíduos, em particular. As lutas de cidades, umas contra as outras, ainda continuam e agora mais graves, na violência urbana. A poluição química da atmosfera, que ameaça a Terra, filha daquela de natureza mental e moral, lentamente destrói a Irmã Natureza que tanto amas. Homens dominadores e perversos ameaçam-se ainda através da política escravizadora das moedas que subjugam os povos que não têm voz no concerto das Nações poderosas. As vozes que proclamam a paz estão muito comprometidas com a guerra.

O mundo de hoje aguarda o retorno da tua Canção, pobrezinho de Deus, porque ela impregna as vidas com ternura, amor e paz. Iremos fazer um grande silêncio interior, preparar os caminhos e aguardar que tu chegues, simples e nobre como o lírio do campo, bom e doce como o mel silvestre, amigo e irmão como o Sol, para que tua voz nos reconduza de volta ao rebanho que te segue e levas ao Irmão Liberdade, que é Jesus.

Mensagem Irmão da Natureza, escrita em Assis, Itália, no dia 27 de maio de 2001.